Cansei de Ouvir Música Velha

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MANIFESTO

Cansei de Ouvir Musica Velha

Um convite à reflexão sobre o hiato cultural e o papel da tecnologia no resgate da alma musical.

Cansei de Ouvir Música Velha não foi planejado. Ele surgiu espontaneamente, como alguém que sobe os degraus de uma escada sem saber o que encontrará no final.

O "feeling" do instrumental se divorciou da poesia. A música perdeu a capacidade de contar histórias.

Há um grande hiato cultural na literatura, teatro, cinema e na música. Esse fenômeno vem ocorrendo desde o final da década de 90; a criatividade parece ter estagnado, dando lugar apenas à técnica e a receitas comuns e repetitivas.

Tudo começou quando, em 2024, resolvi fazer uma brincadeira com IA musical utilizando poemas que escrevo em um diário desde a década de 90 — textos que relatam minhas experiências pessoais com o xamanismo.

Ao contrário do título irônico deste site, confesso: tenho ouvido música velha. Pouca coisa nova hoje tem alma, e o que é bom está escondido em pequenos nichos na internet.

Alguns músicos dizem que não há mais nada para se criar, que tudo já foi inventado pelos que vieram antes, ou dizem que pessoas como eu são apenas saudosistas. Ora, nunca houve nada “novo” para ser criado. Toda música que o ser humano concebeu em sua trajetória neste planeta é resultado da cópia da anterior; um grande “meme” que atravessou eras desde o Paleolítico, quando a música era feita de forma ritual. Todo músico se baseia em referências de autores que vieram antes dele.

Então, por que a música parou?

O que aconteceu com o legado de gerações de músicos que aprendiam e reinterpretavam seus antecessores de forma diferente, com um sentimento intimista e pessoal? Todas as revoluções musicais só existiram porque alguém resolveu escutar um músico velho e reinterpretá-lo.

Não se trata de saudosismo. Nasci em 1967 e acompanhei as revoluções de todas as décadas. Ouvi e ainda ouço Son House, Chuck Berry, Elvis, Creedence, Beatles, Deep Purple, Led Zeppelin, Soundgarden, Nirvana, entre outros… e aí, parece que acabou.

Os grandes inovadores sempre beberam do passado para criar o futuro; usaram o sintetizador para traduzir o sentimento do blues, enquanto eram criticados pelos puristas, ou Muddy Waters quando tocou com a guitarra elétrica.

Muddy Waters tocando guitarra
New Orleans Jazz & Heritage Festival, 1976.
(Domínio Público)

A trajetória da evolução humana só existe porque repetimos, ao nosso tempo, o que os antepassados fizeram ao modo deles, com a tecnologia que tinham disponível em sua época. 

O erro atual não é a tecnologia, mas o abandono da herança. Paramos de ouvir os mestres porque os chamamos de ‘velhos’, esquecendo que sem a raiz, a copa da árvore não tem para onde crescer. 

Eu escolhi não parar. Uso o que o presente me dá para honrar o que o passado me ensinou. Apesar de ter estudado música três vezes ao longo da minha vida, nunca me tornei músico. Só tenho meus ouvidos e algum conhecimento básico de teoria musical. Se eu, que não sou músico, obtive bons resultados usando a IA musical, que dirá um músico?

Não acredito que os músicos devam abandonar seus instrumentos em favor dos algoritmos.

Pelo contrário: vejo a IA como um showcase de infinitas possibilidades, um laboratório de referências que nos desafia a ir além.

mulher_cantando

A música só se torna plenamente real quando é filtrada pela alma e executada organicamente por mãos humanas. Eu mesmo, empolgado com o que criei nestas experiências, sinto o desejo de retomar meus estudos e, um dia, tocar por mim mesmo cada uma dessas músicas. A tecnologia me deu a visão; agora, o instrumento me chama para a realidade.

Termino este manifesto com uma pergunta para os músicos: não está na hora de olhar para trás e recuperar o elo que foi perdido? Porque o futuro já está batendo à porta nos cobrando a herança do passado, e sem passado, não há futuro.

Robson Seloti –  2026